A Linguagem como Vírus: uma Leitura do Experimento Xenotexto, de Christian Bök.

Dissertação de mestrado · Universidade de Brasília · 2023

colônia de neurônios sendo cultivada em um chip de silício

RESUMO

Na virada do sec. XX para o XXI, o poeta experimental canadense Christian Bök dá início a um projeto poético ainda em andamento denominado The Kenotext Experiment. Tal Experimento, inspirado na proposta do escritor beat e ciberneticista William Burroughs de que a “linguagem é agora um vírus” pretende contaminar o discurso literário com os vetores da bioquímica e da bioengenharia, ao produzir um Xenotexto: um “belo e anômalo” poema que habite, como um parasita, o corpo da bactéria extremófila DeinococcusRadiodurans.

Transformando a um só tempo o micro-organismo em um escritor e arquivo do poema, o Experimento é um curioso reflexo de uma sociedade sob o regime de controle farmacoponográfico, que esfumaça e confunde cada vez mais uma série de hierarquias corporais-semióticas – tornando literal a confusão de barreiras metafísicas proposta pela criatura ciborgue imaginada pela filósofa Donna Haraway. Ademais, ao arquivar seu poema nos genes de uma criatura não-humana e praticamente imortal, Bök coloca o próprio significado do “texto” e da “autoria” em risco, o abrindo às silenciosamente monstruosas linhas de contato com aquilo que está fora, além e aquém, dos circuitos de significados humanos. Um texto que fosse destinado a leitores não-humanos: ciborgues, inteligências artificiais, espectros e criaturas alienígenas. Nessa dissertação, pretendo compreender como a manipulação de corpos vivos com fins literários pode alterar o por vir da literatura e, mais extensamente, do próprio sentido e do corpo humano que a cria.

Palavras-chave: Poesia contemporânea; Experimento Xenotexto; Christian Bök; Ciborgue.

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