Begotten
October 3, 2020
Original in Portuguese — English translation coming.
Como pode a imagem sobreviver a si mesma? quer dizer, o que vem da película, o que, daquela material feito de banha, carne, sobrevive? Convulsionando, mutante: a imagem é plasmada a partir de restos minerais, mais antigos do que o próprio tempo. Formada pelo pó da terra, como a carne. Consumindo-se a si mesma. “Como uma chama queimando a escuridão.”
A imagem em begotten é uma ferida difícil de enxergar. Cada cena, frame, uma ferida estranha naquilo que possa querer representar. Cada cena é uma abertura, a inauguração de uma ferida aberta na realidade. Uma mutação do corpo da realidade.
(o texto a seguir é resultado de cortes que eu realizei em cima de uma entrevista que Elias E. Merhige, o suposto “diretor” do filme, concedeu ao site https://horrornews.net[1])
Pouco se sabe a respeito da origem, do processo de gravação e de fabricação da “película”.
Originalmente confundida com um pergaminho, foi achada durante as escavações de uma determinada catacumba ao sul do que, atualmente, se chama Iraque (a antiga região da Suméria, uma das civilizações mais antigas e mais importantes do planeta. Foram os Sumérios que inventaram a maior tecnologia do ocidente: a escrita. Hoje sabemos que, igualmente, podemos atribuir-lhes a invenção do vírus da imagem gravada, do filme). Em relação a tudo que se encontrou durante o período de escavações, nada de especial se poderia dizer sobre o embrulho que continha o artefato, a não ser que tinha como conteúdo uma estranha reunião de pergaminhos, de cor escura e metálica, e uma pedra com inscrições cuneiformes. Estima-se que a pedra tenha sido gravada por volta de 3000 a.c.; já o “pergaminho”, estranhamente, não se permitiu datar por nenhum método conhecido pela ciência… De fato, é opinião das maiores e mais estimadas entidades arqueológicas (como a associação internacional de arqueologia), que devida a sua formação química[2], é possível que ele nem seja de origem terrestre, ou que tenha surgido em um momento muito remoto da formação geológica do planeta terra – muito anterior ao que se poderia datar usando ciclos de carbono. Talvez não fosse mesmo exagero afirmar que teria surgido antes do próprio tempo como o conhecemos.
Elias E. Merhige, o “diretor” do filme, conta que enquanto realizava experimentos com sua companhia de teatro/cinema experimental em meados dos anos 80 em Nova York, foi contatado por uma amiga sua, a Dra. Susan Gatnos, arqueóloga e especialista em artefatos sumérios. Segundo cita Merhige, de um trecho de um email enviado da especialista para ele, sua colega teria encontrado, em uma recente expedição na qual havia participado, uma
“espécie de papiro muito peculiar, de aparência escura e metálica, composto não de fibras de arroz ou pele de animal, como de costume mas, segundo apontaram exames, por um tipo de triacetato de celulose, que se não me engano é o mesmo material que compõe os filmes fotográficos. Esse, no entanto, apresenta uma diferença impressionante: sua base molecular não é o carbono, mas sim o silício… Com toda a certeza, algo único às ciências arqueológicas, até hoje… Acrescento, ainda, que junto dele achamos uma pedra com inscrições cuneiformes igualmente incrível, como nunca vi antes.”
O diretor ressalta que, ao final, o email apresentava um pedido de que ambos se reunissem com certa urgência, pois a Dra. Gatnos não sabia por quanto tempo ainda poderia manter o achado sob seu domínio, posto que o NYMSA (Museu de Artefatos Sumérios de Nova York, em uma tradução livre), do qual era funcionária na época, apenas havia lhe concedido uma passageira custódia dos objetos, com o fim de que esses fossem examinados o mais rápido possível. Por isso, nesse sentido, sua colega lhe pedia que guardasse total discrição a respeito do assunto, pois a menor exposição a respeito dos objetos poderia arruinar sua pesquisa junto ao museu. E de fato, foram apenas 17 anos depois do que estou prestes a narrar que Merhige se dispôs a falar abertamente a respeito de “sua” maior obra.
Merhige, que na época era uma espécie de especialista em cinema e películas experimentais, atendendo ao pedido da amiga, se dispôs o mais rápido que pode a encontra-la. Além disso, o diretor possuía o mais vívido interesse por quinquilharias e bizarrices do cinema antigo.
O encontro de ambos apenas comprovou as suspeitas da Dra. Gatnos: estranhamente, aquele pergaminho obscuro se assemelhava muito a uma película cinematográfica. Obviamente, estava em estado decrépito, enrolado em bolos quase impossíveis de se desfazer em função do tempo em que estivera guardado. Ainda assim, no entanto, permitia um razoável grau de maneabilidade, sem que se deixasse transformar em pó—o que era impressionante, dada a idade, ou melhor, a impossibilidade de se traçar uma idade, do pergaminho, como a Dra. Gatnos mais tarde veio a anunciar a Merhige.
Assim, foi possível que se desenrolasse o pergaminho e se expusesse seu conteúdo sem a precaução excessiva tomada por arqueólogos ao encontrar algo de extrema raridade. Se por fora era de um opaco-escuro e metálico, por dentro possuía um brilho prata e gelatinoso, muito semelhante ao das películas preto e brancas dos filmes de 120mm. A semelhança era tamanha, que Merhige por um momento tentou sua amiga a permitir que ele submetesse o pergaminho a algum tipo de processo químico de revelação (com seu treinamento em cinema experimental, Merhige se gabava de que não houvesse nenhum tipo de película que jamais tivesse existido e que ele não fosse capaz de revelar). Existia um embargo óbvio, no entanto: a raridade e antiguidade do pergaminho não possibilitavam nem mesmo que uma pequena amostra fosse retirada para testes. Assim, forçosamente, a atenção dos dois teve que se voltar ao outro artefato que acompanhava o primeiro: o pedaço de pedra com as inscrições cuneiformes. A esperança de ambos era que ela pudesse revelar algo a respeito do misterioso pergaminho metálico, bem como a respeito da origem dos dois artefatos no geral.
A “Lápide” (como a Dra. Gatnos veio a chama-la) era não menos impressionante que a “película”. Cunhada por um método extremamente preciso e nunca visto pela arqueóloga antes, a inscrição misturava caracteres sumérios de períodos históricos muito distintos. Isso era uma evidência de que a Lápide havia sido passada por pelo menos 8 ou 10 gerações, o que compreenderia um período de 500 anos. Gatnos, no entanto, achava que tal ideia era absurda, pois não havia nenhuma variação de grafia rastreável entre a inscrição de um caractere cuneiforme e outro. Segundo ela, todos eles teriam que ter sido escritos pela mesma pessoa… De qualquer forma, isso não foi empecilho para que a arqueóloga tentasse traduzir o conteúdo da pedra. No entanto, apesar de, então, ser uma das maiores especialistas em escrita cuneiforme sumérica vivas, Gatnos encontrou sérias dificuldades para traduzir a inscrição. Merhige conta que durante seus encontros, que passaram a se tornar de praxe e semanais (por um período não menos inferior do que 2 meses, pois o diretor se dispôs a auxilia-la na tarefa da tradução), a pesquisadora parecia sempre cansada e como que perturbada pela falta de sono.
De fato, ainda segundo assinala Merhige, desde que havia se colocado a traduzir a inscrição, sua amiga parecia cada vez mais e mais cansada, como se o objeto viesse, de alguma maneira, “lhe sugando a vida.” O diretor descreve que de uma pessoa com aparência e ar animados, sua amiga foi assumindo um tom cada vez mais pálido e um comportamento cada vez mais indiferente ao corpo que carregava, sem que, no entanto, tenha se dado ao luxo de sequer uma vez reclamar a respeito. Hoje, Merhige suspeita de que ela nem mesmo tenha percebido que estava em tal estado. Sobre os seus últimos encontros, o diretor faz uma estranha observação: ela havia se tornado completamente indiferente às suas próprias necessidades fisiológicas. Apesar de, por exemplo, passarem os dias inteiros debruçados sobre a tradução da pedra, ela não se movimentava nem sequer uma vez, seja para ingestão de comidas e líquidos, seja para ir ao banheiro. Ela chegava no ateliê de Merhige, logo cedo, e só fazia algum outro movimento significativo quando ia embora, geralmente sempre em horários avançados da noite. Merhige diz que a partir de seus 5 últimos encontros sua amiga havia adquirido uma certa obsessão descontrolada sobre sua pesquisa a respeito do conteúdo da “lápide”. Que enquanto ele estava a seu lado, transcrevendo incansavelmente todos os possíveis resultados apresentados pela pesquisadora, ela no máximo balbuciava uma ou outra coisa, para si mesma, sempre de maneira muito baixa, o olhar focado sobre a pilha de livros, impossível de ser desviado. O diretor diz que não adiantava chama-la, seu foco estava completamente voltado a tradução.
Foi no ultimo encontro dessa época, no entanto, que Merhige suspeitou que algo de muito esquisito lhe estivesse acontecendo. Como de praxe, ela havia chegado logo cedo pela manhã no ateliê. Nesse dia, no entanto, sua colega parecia estar particularmente afetada, com a aparência de quem não pregava os olhos por dias a fio. Mas foi apenas quando ela abriu a boca que o ápice da bizarria foi alcançada: ela não se comunicava mais numa tongue conhecida por Merhige, e pelo que lhe parecia não parecia uma tongue conhecida por ninguém, em absoluto.
Merhige fala que vê-la debruçada sobre a pilha de papeis e livros, naquele momento, lhe parecia uma das maiores imagens de insanidade que jamais havia visto. A princípio, disse que não quis interferir, pois sabia do caráter reservado da amiga, e também que ela era conhecida na comunidade científica por ser uma profissional do tipo imersivo. Acreditava que, talvez, aquele pudesse ser algum tipo de método radical criado pela amiga para dar conta das dificuldades apresentadas pela tradução. Mas o tom da coisa foi se agravando com o caminhar do dia, o que levou o diretor a contatar o marido da pesquisadora. Ao chegar no ateliê, foi necessário que os dois carregassem-na a força para o carro. O marido de Gatnos, apavorado, disse que já temia por um colapso mental de sua esposa, que não sabia o que fazer, pois por mais que ele tentasse afasta-la do trabalho, ela sempre dava um jeito de voltar de maneira compulsória. Para ele, era quase como se ela não tivesse mais vontade própria. Nos últimos 3 dias, por exemplo, ela nem havia estado em casa, gastando-os inteiros na sala que lhe pertencia no museu.
Esse último encontro entre a doutora e o diretor marcou um período de hiato na relação de ambos, que durou, segundo lembra Merhige, aproximadamente 4 meses. Nesse tempo, Merhige ficou sabendo, através de uma nota oficial soltada pelo museu onde Gatnos trabalhava, que ela, supostamente, havia contraído, nas escavações em que encontrara os artefatos, uma doença – o que aparentemente justificaria o comportamento estranho da pesquisadora.
Foi apenas ao fim desses 4 meses que Gatnos escreve um email para Mehige, contendo a tradução da “Lápide” (que o diretor disponibiliza na íntegra na entrevista concedida ao site horrornews – segue uma tradução livre do documento):
Querido Mehige,
Me desculpe se nos últimos meses não lhe contatei… foram dias difíceis. Como acredito que você veio a ficar sabendo, contraí uma espécie rara de vírus transmitido por um pequeno carrapato de deserto na ultima expedição que realizei há 6 meses – na mesma em que eu e minha equipe encontramos os artefatos… Lhe informo, no entanto, que está tudo bem, e que já estou em vias de me recuperar.
Agradeço todo o suporte que você me apresentou. Sei que andei omissa nos últimos 4 meses, apesar de suas tentativas constantes de falar comigo. Mas acredito que fiz o melhor. Peço por favor que não contrarie meu pedido de distância, pelo menos por um bom tempo, sobre qualquer coisa que diga respeito ao conteúdo da lápide ou do pergaminho… Acredito que tais conteúdos não foram feitos para participar da consciência humana… Uma vez terminada a tradução da lápide, entreguei-a o mais rápido que pude a uma entidade museóloga responsável; mas a verdade é que sinto que deveria tê-la destruído, apagado todos indícios dessa pesquisa. Te aconselharia a fazer o mesmo. Agora, no entanto, para mim, já é tarde… não quero mais contanto nenhum com aquele objeto ou com qualquer ou com qualquer coisa que dele derive… Não posso lhe dizer muito, a não ser que temo pela sua vida, querido amigo…
Segue a tradução:
“Portadores da linguagem, Fotógrafos, Escritores de diários
Vocês, com sua memória, estão mortos, congelados
Perdidos em um presente que nunca para de passar
Aqui vive a encarnação da matéria
Uma linguagem para sempre.”“Como uma chama queimando a escuridão,
A vida é carne e osso convulsionando sobre o chão.”Nota: o substantivo “Fotógrafos” é um anacronismo, evidentemente. No entanto, de todos os livros e fontes que consultei (que, segundo me consta, passam facilmente de mais de 50 publicações dos maiores especialistas em sumério e escrita cuneiforme), não consegui encontrar nenhum termo que se assemelhasse ao conceito que a forma parecia sugerir no contexto. Desmontados os sinais que compõe essa palavra, teríamos algo como caixa-captura-luz-pessoa-olhos. Em Sumério antigo, geralmente, a formação de substantivos derivados consiste na colocação do elemento modificador ao final das partículas de substantivos. A profissão de ourives, muito comum na época, por exemplo, se escreve: pedra-modificada-pessoa, indicando, quase que concretamente, o que de fato o ourives faz… No caso da misteriosa expressão, não fui capaz de interpreta-la de outra maneira, mesmo que seja acusada de anacronismo… Mas, dado o nível de mistério dessa e o avanço tecnológico da cultura Suméria, não me surpreenderia que eles possuíssem uma espécie de filmadora ou aparelho similar para captar objetos através da luz..
Mehige conta que ao terminar de ler o email ficara perplexo com a veemência com que sua amiga estava evitando qualquer contact que dissesse respeito aos artefatos, mesmo que isso significasse interromper a amizade que um nutria pelo outro. Para ele, deveria existir algum motivo a mais. De fato, achava estranho que ela tivesse sumido assim tão abruptamente. Estranhava também que sua doença tivesse demorado 2 meses para se manifestar. Não que duvidasse, mas achava questionável a sequência de acontecimentos: enquanto ele estava em contact com ela, por mais que ela estivesse de fato aparentando algum tipo de debilidade a olhos vistos, ela nunca abandonava seu trabalho na tradução da pedra, muito pelo contrário, como já indicou Merhige, quanto mais ela trabalhava mais obcecada se tornava sua busca pelo conteúdo da mensagem. Para o diretor, a relação entre seu adoecimento e a tábua contendo os escritos era de causa e consequência…
De qualquer forma, após uma breve reflexão a respeito do conteúdo da “Lápide”, (que Mehige caracteriza, na entrevista, como extremamente poético mas de um sentido elusivo e críptico) o diretor decidiu que, dado o grau de estranheza da situação inteira, o melhor seria mesmo seguir os conselhos da Dra. Gatnos: se livrar do que havia sobrado. Se encaminhou, então, para seu ateliê onde as reuniões com a colega tinham tomado lugar e onde se encontravam os pedaços enrolados do pergaminho. Chegando lá, o diretor descreveu que pretendia, de fato, queimar as películas: acendeu o interior de uma lixeira com um pouco de álcool, e pegou a caixa contendo o pergaminho. Foi então que algo de imprevisível se deu.
Prestes a jogar o primeiro pedaço do artefato no fogo, Mehige percebeu que, uma vez próximo ao calor e à luz, o objeto começava a se descascar revelando, por baixo da crosta escura e opaca que o envolvia por fora, uma série de manchas pretas, de alto contraste. O diretor relata que ficou estupefato, e que a primeira coisa que lhe veio a cabeça era que, sem dúvida, aquilo que ele e sua amiga tinham tomado como um pergaminho não poderia ser outra coisa que não uma película fotográfica de origem desconhecida. O filme estava sendo revelado, ali, diante do fogo. A disposição das imagens sobre a superfície, a forma como eram seriadas, enquadradas, mesmo os frames estavam ali. Sem duvida, conclui Merhige para os entrevistadores, aquilo era de fato um filme.
Imediatamente, Merhige prepara os pedaços restantes da bizarra película para serem processados nas ilhas de edição e projeção presentes em seu ateliê. Uma vez terminado o processo de revelação pelo fogo de todo o resto do pergaminho (o diretor diz ter levado quase uma noite inteira para efetuar tal ação), ele enfim tenta dar início à montagem. Os pedaços do pergaminho não vinham cortados em nenhum formato específico, por isso Merhige os dividiu no tamanho que acreditava que melhor convinha à reprodução e projeção. Por acaso, o tamanho que mais se aproximou foi o de 16 mm.
No entanto, foi enquanto cortava os pedaços, que Merhige observou que teria alguns problemas. O alto contraste das imagens aliado ao tom metálico e escuro da película não permitiam que a luz usada nos projetores a atravessassem. Mesmo depois de incansáveis testes nas máquinas que possuía, o diretor sabia que para conseguir projetar as imagens contidas no estranho filme ele precisaria de uma combinação específica de tons de luz, provavelmente concentrados em diferentes potências. Um outro problema, certamente bem mais sério do que o outro, era que, uma vez aquecidas, os pedaços de pergaminho endureciam e adquiriam uma textura arenosa, como se tivessem virado laminas de um vidro escuro relativamente translúcido envoltas em grão de areia. Isso impossibilitava que a película fosse rodada em qualquer tipo de ilha de edição ou maquina de projeção disponível na época, pois todas elas exigiam que o filme fosse maleável como plástico.
Merhige sabia que, se ele quisesse de fato ter acesso ao conteúdo da película, teria que construir ele mesmo máquinas que fossem capazes de realizar a montagem e a projeção do filme. Embora não possuísse recursos financeiros para recorrer a um maquinário novo (na época, era de fato muito caro construir), o diretor confiava que talvez não encontrasse grandes dificuldades para realizar tal feito. Sua formação como cineasta experimental (foi discípulo direto de figuras como ) lhe ensinara um extenso conhecimento sobre a mecânica e o funcionamento da grande maioria dos dispositivos cinematográficos. “Naquela época, saberia construir um projetor do zero”, ressalta o diretor com um leve tom de orgulho, segundo a entrevista. Além do que, no final dos anos 80, Merhige era uma pessoa relativamente bem inserida no mercado independente cinematográfico, conhecendo bem todo o tipo de loucuras e quinquilharias que corriam pelo submundo do cinema nova-yorkino.
Não levou muito tempo, de fato, para que o diretor reunisse todas as peças necessárias. “Acredito que devo ter levado uns 3 ou 4 quatro meses… naquela época eu conhecia muita gente. Tinha vezes em que eu simplesmente chegava nas lojas de maquinas usadas e perguntava se eles não me dariam isso ou aquilo. Às vezes eu chegava a levar uma lista do que precisava e as pessoas de bom grado iam me dando o que faltava. A maioria, de qualquer forma, era sucata. Mas mesmo assim, era surpreendente, as pessoas realmente são legais quando querem. Quando não era assim, geralmente eu fazia pequenos bicos para conseguir algumas coisas”, comenta o diretora na entrevista.
No final, Merhige acabou com um projetor italiano dos anos 40 e uma câmera Mitchel de 1936 que, com a ajuda de um amigo engenheiro seu, foram modificados para acomodar as necessidades do “filme”. Foi com a ajuda desse mesmo colega (que Merhige insiste em omitir o nome, aparentemente a pedido do próprio amigo) que o diretor deu início ao processo de montagem do filme.
(O seguinte relato, retirado diretamente da entrevista, são as próprias palavras de Merhige sobre essa fase de contact com a película. O nome de seu colega foi substituído apenas por um X)
“Não fazíamos ideia do que era aquilo.
Às vezes, era como se voltássemos à sopa primordial da vida… não havia pensamento, nada, apenas aquela força, terrana, do submundo, chtológica, seres tentaculares tomando conta. Outras, ficávamos horas observando o movimento da película na máquina… a luz incidindo sobre aquela superfície estranhamente escura e metálica… formando aquelas fascinantes deformidades visuais… a passagem dos frames, de cada um deles… foi necessário fazermos um processo de recuperação em cada frame… eles estavam muito gastos pela ação do tempo… obviamente isso dificultou nosso trabalho, e eu diria que recuperamos apenas 1/5 do material original…
Nossa noção de tempo esteve completamente afetada durante todo o processo. Não sabíamos mais diferenciar entre dia e noite, ou entre horas e minutos e segundos… Era como se estivéssemos habitando um momento de a-representatividade, a-significância, como mais tarde eu vim a melhor conceituar. O filme, ele próprio, havia convulsionado certas estruturas da realidade que considerávamos fundamentais. Foi então que as palavras presentes na lápide começaram a fazer total sentido.
Senti como se aquela mensagem fosse direcionada diretamente a mim… Àqueles que tentam capturam o tempo representando-o. Estava ali, diante de nós, uma forma a-temporal e a-representativa de “concepção” da realidade.
Era como se algo estivesse tentando dar vida à película… provavelmente gastamos mais de 10 horas em cada frame (ou algo que nos assemelhava como sendo 10 horas)… Dessas várias horas, era possível ver algum tipo de luz muito estranha, uma certa luz sem luz, que por sua vez era o plano de fundo de todos aqueles objetos, aquelas coisas que se mutilavam, se destruíam. Aos poucos eu e X íamos perdendo a cabeça… de fato, era um estado alucinatório.
Era incrível. Segundo especulamos mais tarde, era quase como se a película não fosse apenas a representação de algo que já havia passado… Era como se a película, ela mesma, a imagem, ela fosse a realidade. A película era a realidade. Carne no Osso. Disso, não demorou muito para concluirmos que, na verdade, aquele poderia ser o momento da criação da carne sobre a terra…
Evidentemente, estávamos longe da lucidez… tinha alguma coisa de terrível nessas imagens… era como se vendo-as sair diretamente da película nós estivéssemos sob o efeito de algum feitiço… mas ainda assim, era mais que isso, parecia que aquelas imagens falavam com algo muito primitivo em cada um de nós… era como se estivéssemos mesmo voltando no tempo, ou melhor, destruindo as barreiras temporais, nos tornando aqueles seres, vindos da terra… rastejantes, celulares… como se nós tivéssemos nos tornado o tegumento terrestre…
De fato, me lembro que depois de uma longa sessão de edições (haviam semanas que passávamos facilmente de 3 a 6 dias, trancados, fascinados pelas imagens – mal saindo para suprir necessidades básicas, como comer ou cagar… posteriormente me lembrei do que havia acontecido à Dra. Gatnos…) eu e x havíamos perdido, por um período que se estendeu por mais ou menos 48 horas, a capacidade de nos comunicarmos verbalmente com o mundo… desse período, me lembro pouco… mas lembro bem de flashs em que eu e meu companheiro estávamos rastejando, convulsionando no chão… como se fossemos embriões… seres ainda em formação… era como se tivéssemos de fato passado por um processo de mutação corporal… e eu não diria de regressão, de desevolução, mas entrado em contact com todos os genes milenares que existem no corpo humano, aqueles que nos conectam às bactérias que caminham sobre a terra, por exemplo.
Acredito que, findas as 48 horas, tenhamos renascido, gerados por uma nova consciência…”
O impressionante relato de Merhige, no entanto, jamais foi de fato experimentado por outras pessoas que não ele mesmo, seu colega e, supostamente, sua amiga arqueóloga, Dra. Gatnos. Segundo o diretor o processo de regravação do papiro para o filme fotográfico destruiu completamente o primeiro. E, como diz Merhige, “para alívio da humanidade” a gravação do papiro não possui o mesmo feitiço que a projeção do pergaminho original (embora existam casos, não muito isolados, de pessoas que, ao terminar de assistir Begotten, tenham entrado em um estado alucinatório, muito semelhante a uma espécie de febre. Geralmente os indivíduos acometidos por tais sintomas dizem estar se “tornando parte da terra”).
[1] Me baseio na primeira edição da entrevista. Por algum motivo, há alguns anos, ela saiu do ar e foi substituída por outra, de conteúdo completamente contraditório. O motivo me escapa, mas Merhige, de fato, em mais de um momento se mostrava apreensivo em revelar a verdade sobre o filme. Tudo me leva a crer que a existência de uma segunda edição que substituísse a primeira funcione apenas como faixada.
[2] As películas fotográficas possuem celulose e gelatina em sua composição, ambas formas orgânicas derivadas de moléculas de carbono. A o material de Begotten, no entanto, é formada a base de compostos de silício. Hoje, a ciência sabe que o silício, bem como o carbono, é uma das moléculas mais estatisticamente prováveis de formarem compostos orgânicos.