Language as a Virus: Hyperstition and Parasitic Mechanisms
October 30, 2020
Original in Portuguese — English translation coming.
“O mecanismo não tem voz própria e pode falar indiretamente apenas por meio das palavras dos outros. . . falando através de jornais. . . anúncios. . . falando, sobretudo, por meio de nomes e números”.
William Burroughs & Brian Gysin, “The Tird Mind”
O funcionamento da linguagem. loops temporais. Dejá vus. das muitas características que qualquer linguagem pode possuir, uma certamente se destaca: nenhuma delas possui um corpo que lhes seja próprio.
mensagens precisam parasitar um meio. codificar. decodificar.
Uma mensagem que veio do futuro. os anagramas na tongue. a destruição da intencionalidade. A linguagem se utiliza de seu hospedeiro (humano) pra se procriar. simplesmente. depois de terminado o processo, ele é facilmente descartável. No filme The Prince of Darkness de John Carpenter, inteligências extraterrestres (que foram mantidas por milênios em segredo por uma repartição secreta da igreja católica chamada “a irmandade do sono”) colonizaram o planeta terra, para que no futuro os seres humanos sejam capazes de compreender sua tecnologia e finalmente estejam aptos a se tornarem seus hospedeiros ideais. Nesse universo, esses seres usariam os humanos apenas como uma etapa de sua maturação, possuindo e demonizando seus corpos para enfim conseguir resgatar “o príncipe das trevas” (numa referencia aberta a satã). Jesus cristo teria sido uma outra fonte de inteligência extraterrestre que tentou avisar, em vão, nossos ancestrais sobre o perigo da tecnologia que estávamos desenvolvendo (afinal, a humanidade o crucifica e o toma como louco).
Evidentemente, tal tecnologia era a linguagem (no filme, mais precisamente, a linguagem matemática. De fato, os seres extraterrestres originários tinham até mesmo nos legado um escrito críptico em forma de livro – como o Necromanícon ou o Manuscrito de Voynich. No entanto, seria apenas no futuro, com a descoberta da física quântica, que os humanos seriam capazes de decodificar seu conteúdo).
A linguagem é uma tecnologia de agência não humana que controla o humano. Controla ao se instalar no corpo humano > controla ao limitar seu repertório. loops. Ao mesmo tempo ela pode nos mandar mensagens do futuro(?). Os sonhos no filme de Carpenter são um bom exemplo disso. Humanos do futuro tentando avisar humanos do passado sobre as intenções dos seres alienígenas, em vão.
A transição que representa o processo codificar/decodificar/codificar/decodificar etc sempre apresenta um grau de ruído — corpos humanos são máquinas de embaralhar informação- como um arquivo jpg que é corrompido ao ser constantemente reproduzido em diferentes programas – ou um telefone sem fio. William Burroughs nos propõe um experimento interessante: coloque um toca fitas escondido embaixo de uma ponte, digamos. grave a mensagem “esta ponte irá desabar”, digamos. Segundo ele, cedo ou tarde, a ponte desabará. Ele mesmo, em outro contexto, realizou o experimento e obteve resultados positivos. Eu mesmo realizei o experimento e obtive resultados positivos. Mas por quê? o princípio virológico da linguagem nos permite afirmar que ela se reproduz independente da agencia humana; o humano funciona apenas como uma máquina de embaralhar informações e vetorizar as agencias virais da linguagem. Burroughs chama a esse processo de “playback”. O humano seria apenas um toca fitas. Humano-toca-fitas.
A virologia do playback ecoa ainda na teoria paragramática de Saussure. Todas as palavras podem se pronunciar a si mesmas, ou pronunciar coisas que estariam além da intenção do indivíduo humano que em princípio as articulou para que estivessem juntas. Como assim? Na frase “MINHA CABEÇA DÓI BASTANTE”, por exemplo, se aplicarmos um protocolo de leitura não-linear (um método que fosse alternativo a leitura da esquerda pra direita, como uma leitura anagramática da frase) poderíamos constatar a formação de novos sentidos não previstos na intenção original da frase. Teríamos: BÁBA, MINHOCA, INSTANTE, BEBA, CAÇA, etc. Tudo funciona como se as palavras carregassem consigo um sentido subterrâneo, escondido (Saussure oscila entre os conceitos de paragrama, anagrama e hipograma para nomear sua teoria, mas é o último, hipograma, que melhor carrega o sentido que quero alcançar aqui). Esse sentido subterrâneo estaria além da intenção inicial do falante ao pronunciar qualquer palavra. Ou seja, o mecanismo linguistico, compreendido dessa maneira, teria suas próprias intenções e agências, e não funciona apenas para expressar as intenções iniciais do falante. O que para Saussure começou como uma pesquisa sobre a linguagem poética empregada em poemas épicos, logo se tornou um vetor de delírio e paranóia: o linguista abortou o projeto por considera-lo nocivo para sua saúde mental. De fato, ele teve medo de que estivesse enlouquecendo, pois passou a enxergar padrões anagramáticos lá onde, a princípio, não deveria.
O hipograma de Saussure pode ser visto como uma espécie de “cifra” que opera espontaneamente no funcionamento da linguagem. Esse processo nada tem a ver com a intenção do agente humano que se utiliza da tongue para se comunicar. De forma que podemos pensar que o processo dá início a si mesmo, o que quer dizer que ele se prolifera indefinidamente sem que aja qualquer tipo de intenção por trás dele.
A virologia da linguagem ou o humano-toca-fitas ainda apresenta uma outra característica se pensado enquanto principio alienígena: como no filme de Carpenter, é um vírus que veio do futuro, e que se instalou no passado apenas para preparar seu próprio hospedeiro para o momento mais oportuno. De novo, isso explicaria os dejá vus, loops temporais, oniromâncias – bem como toda uma mitologia a respeito daquilo que virá do futuro, de uma certa messianidade presente em boa parte do pensamento ocidental (Nick Land atribui ao Capital o papel da inteligência que vem do futuro para capturar o passado; de fato, ela ainda possui muitos outros nomes, Pai, Deus, Sol, Centro, Escritura etc.). Todos esses são fenômenos hiperticiosos da máquina play back vírus humana. O experimento funciona porque ele é programado por si mesmo, “se lembrando do futuro”.
Aqui encontramos ecos das teorias “Hiperticionais” desenvolvidas pela CCRU (Cybernetic Culture Research Unit, ou Unidade de Pesquisa Cultural Cibernética). Segundo a CCRU, a hipertição pode ser entendi segundo o seguinte esquema:
1. Elemento de cultura efetiva que se faz real.
2. Quantidade ficcional operante como um dispositivo de viagem no tempo
3. Intensificador de coincidência
4. Chamado dos Antigos (Old Ones)
o vírus não possui um corpo próprio. Como um demônio, um parasita, ele precisa de um outro corpo para se reproduzir. Ele rouba corpos para que consiga espalhar seu código. O gene da linguagem possui uma mecânica idêntica. Precisa possuir um corpo para se espalhar. Falamos de uma epidemiologia da inteligibilidade.
Podemos pensar num sistema hiperticional onde a linguagem cria a si mesma para contaminar o humano em função de reproduzir a si própria. Quanto mais ela se reproduz, mais ela cria as condições para sua própria reprodução. Uma vez que se tornam hospedeiros da linguagem, os humanos são capazes de sistematizar e organizar as informações dispersar no real. Tal exercício de organização é justamente
É nesse sentido que afirmo que a linguagem é um vírus que vem do futuro. O humano para ela existe enquanto etapa de um processo maior de transformação da realidade – e é justamente essa transformação, ainda por vir, que possibilita e dá forma ao vírus. Indefinidamente, a procura de contact.
REFERÊNCIAS
Burroughs, William. the eletronic revolution, disponível em: https://www.swissinstitute.net/2001-2006/Images/electronic_revolution.pdf
Carpenter, John. The prince of darkness
site da CCRU: http://www.ccru.net/