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“Leitor constelar”, antonio da mata

Um texto que se desfaz onde o céu passa por cima dele. A mancha de texto é a esfera celeste vista de baixo: o centro é o zênite, a borda é o horizonte. Cada estrela acima do horizonte abre um núcleo de dissolução nas letras que estiverem embaixo dela. Nenhuma estrela é desenhada — só existe a deformação que ela provoca.

O catálogo tem 22 estrelas com ascensão reta, declinação e magnitude reais, de época J2000: as cinco do Cruzeiro do Sul, as sete de Órion, os dois ponteiros de Centauro e mais oito avulsas do céu do sul. A cada quadro a página converte o relógio em dia juliano, o dia juliano em tempo sideral local para a longitude de São Paulo, e daí tira a altura e o azimute de cada uma. Há extinção atmosférica: a estrela nasce fraca e ganha força ao subir.

O céu decide onde, e é reversível — quando a estrela sobe as letras afrouxam, quando ela desce elas voltam ao lugar. O que decide o quê são os raios cósmicos: contagens horárias reais do monitor de nêutrons de Oulu, na Finlândia, medidas entre 22 e 23 de agosto de 2026. Os três últimos dígitos de cada contagem são ruído de Poisson — a parte que ninguém prevê nem planta. Esse ruído escolhe uma palavra entre as que o céu deixou elegíveis e escolhe a continuação numa cadeia de Markov treinada só no próprio texto. Essa troca não volta atrás.

O texto são os dois primeiros parágrafos de Industrial Society and Its Future (1995), de Theodore Kaczynski. Um texto que argumenta que a técnica desfigura o humano, desfigurado por dados de raios cósmicos e por uma cadeia de Markov.

Clique em “acelerado” no rodapé para ver o céu real de agora. Toda a informação do que está acontecendo está lá embaixo.

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